A nova edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado revela que 3,7 milhões de brasileiras foram vítimas de algum tipo de agressão doméstica ou familiar em 2025. O levantamento, que chega aos 20 anos de existência e se tornou a série histórica mais extensa do país sobre o tema, ouviu mais de 21 mil mulheres entre maio e julho.
Apesar de uma queda em relação aos números de 2023, os dados geram preocupação pela presença de terceiros durante os episódios. A maioria das vítimas afirmou que houve testemunhas durante as agressões, e 71% relataram que crianças estavam presentes no momento da violência, muitas vezes filhos ou filhas das próprias mulheres.
O estudo também evidencia a recorrência dos casos. Cerca de 60% das entrevistadas disseram que enfrentam episódios há menos de seis meses, enquanto 21% convivem com essa realidade há mais de um ano. Os resultados serão apresentados nesta quinta-feira (27), em uma sessão especial no Senado.
Evolução da pesquisa e impacto da Lei Maria da Penha
Lançada pela primeira vez em 2005, a pesquisa inaugurou a série de levantamentos do instituto e contribuiu para a discussão e aprovação da Lei Maria da Penha, hoje uma referência nacional e internacional no enfrentamento à violência contra a mulher.
Desde então, o DataSenado já realizou mais de 500 estudos sobre vários temas e entrevistou mais de 4,7 milhões de cidadãos. A pesquisa sobre violência de gênero ocorre a cada dois anos e, em 2025, ampliou seu alcance ao incluir mulheres trans, aprofundar questões sobre violência digital e detalhar a recorrência das agressões.
As informações são integradas ao Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma que reúne dados oficiais de órgãos públicos e apoia políticas de proteção às mulheres.
Subnotificação continua sendo um desafio
Mesmo com avanços metodológicos, a pesquisa identificou uma discrepância entre agressões vivenciadas e agressões reconhecidas como violência. Embora 33% das entrevistadas tenham relatado insultos, humilhações, ameaças ou outras condutas violentas, muitas não se identificaram como vítimas quando questionadas diretamente.
O levantamento estimou ainda que 17% das mulheres que sofreram agressões graves continuam morando com o agressor. O índice sobe para 19% entre aquelas que estão fora do mercado de trabalho. Muitas relataram que a primeira agressão ocorreu ainda na adolescência.
Pela primeira vez, o estudo investigou a presença de testemunhas. Em 40% dos casos, outras pessoas presenciaram a violência, mas não ofereceram ajuda.
A violência digital também ganhou destaque nesta edição. Dez por cento das mulheres afirmaram sofrer agressões virtuais, como envio de mensagens ofensivas repetidas, criação de perfis falsos ou invasões de contas.
A maioria das vítimas não busca ajuda formal. Entre as justificativas, 17% citaram preocupação com os filhos, 14% afirmaram não acreditar na punição do agressor e 13% disseram acreditar que seria a última agressão. A rede de apoio mais acionada ainda é formada por amigos, familiares e grupos religiosos, enquanto a procura por delegacias ou serviços como o Ligue 180 permanece reduzida.
Percepção de aumento da violência
A percepção sobre o cenário nacional permanece negativa. Sete em cada dez brasileiras acreditam que o país é muito machista e 79% afirmam que a violência contra a mulher aumentou no último ano.
Embora a maioria conheça a Lei Maria da Penha, apenas 19% relatam ter domínio sobre o conteúdo da legislação. A confiança na capacidade da lei de proteger as mulheres diminuiu em comparação a 2023, especialmente entre aquelas com menor renda e escolaridade.
A pesquisa também perguntou sobre a solicitação de medidas protetivas. A maior parte das vítimas não buscou esse recurso. Entre as que solicitaram, 17% disseram que a medida foi descumprida e 20% afirmaram que ela foi totalmente cumprida.
Sessão especial marca os 20 anos do DataSenado
As duas décadas de atuação do instituto serão celebradas nesta quinta-feira (27), em uma sessão especial no Senado. O evento apresentará os dados atualizados do Mapa Nacional da Violência de Gênero e reforçará o papel do DataSenado na formulação de políticas públicas destinadas à proteção das mulheres.
O Portal Clube Notícias tratá atualizações após a divulgação dos novos dados
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