O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não era sincero ao fazer discursos antipolítica durante as eleições e só conseguiu estabilidade no governo depois de colocar em prática o modelo de negociações que dizia condenar, afirmou Gilmar Mendes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).
Em entrevista à CNN Brasil neste domingo (14), Mendes disse também que o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol acertaram ao ingressar na carreira política, pois ambos já atuavam como políticos enquanto ainda ocupavam seus cargos na magistratura e no Ministério Público Federal.
Gilmar Medes está em Portugal, onde reúne lideranças políticas de diversas alas (incluindo governo, centrão e PT) para um evento que começa na segunda-feira (15).
"Quando assumiu lá atrás [a Presidência], [Bolsonaro] disse que não repetiria o modelo do chamado presidencialismo de coalizão, e acabou optando por apoio parlamentar a partir das bancadas temáticas", disse Gilmar Mendes.
Segundo o ministro, Bolsonaro percebeu que cada bancada (como a do agronegócio e a dos evangélicos) "apresentava dúvidas" na hora de votar com o governo em matérias que poderiam afetar os interesses do grupo que representam.
"Foi isso que acho que o presidente acabou aprendendo com as derrotas que sofreu. Nos vetos, na falta de apoio, acabou mudando para o apoio político tradicional e ganhando algum tipo de estabilidade num governo que estava bastante instável", disse.
Ainda sobre o presidente Bolsonaro, o ministro do STF afirmou que "é muito difícil alguém que repetiu sete ou oito mandatos fazer um discurso sincero da antipolítica, porque se trata de uma atividade eminentemente política e exitosa".
Antes de ser presidente, Jair Bolsonaro foi vereador do Rio de Janeiro (1989 a 1991) e deputado federal por sete mandatos consecutivos (1991 a 2018).
Segundo Gilmar Mendes, a retórica antipolítica pode ser atraente para ouvidos "sem a devida experiência", mas é preciso cautela com as pessoas que exploram esse discurso.
Gilmar Mendes sempre criticou o que considera uma atuação política por parte da Operação Lava Jato. Perguntado sobre a filiação partidária do ex-juiz Sergio Moro ao Podemos e da carreira política de Dallagnol (que pediu exoneração do MPF), o ministro do STF respondeu que "a política e os políticos devem comemorar a sinceridade".
"Certamente terão de prestar contas do que fizeram no passado, mas isso é uma outra questão. É a demonstração de que talvez já fizessem política antes, com uma outra camisa, e agora estarão no campo certo, fazendo política a partir da vestimenta de um partido e, portanto, jogando no campo adequado. Boa sorte", disse.
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