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Os obstáculos que ainda fazem parte da rotina de idosos e pessoas com deficiência

Especialistas explicam como problemas em calçadas, portas, corredores e até objetos de uso cotidiano podem comprometer a autonomia

14/08/2026 08h55 Atualizada há 3 meses atrás
Por: Redação Clube Notícias
Os obstáculos que ainda fazem parte da rotina de idosos e pessoas com deficiência

Quando se fala em acessibilidade, a rampa costuma ser um dos primeiros elementos lembrados. Mas, na prática, garantir que um espaço seja acessível envolve muito mais do que instalar uma estrutura para vencer desníveis. Calçadas irregulares, portas estreitas, corredores sem espaço para manobra, falta de sinalização e até objetos de uso cotidiano podem limitar a autonomia de idosos e pessoas com deficiência.

De acordo com a arquiteta Renata Melo, que atua na área de acessibilidade, é comum encontrar espaços que possuem algum elemento adaptado, mas que não oferecem uma rota acessível completa. Uma rampa, por exemplo, pode ter inclinação inadequada ou não contar com espaço suficiente para manobra.

“Acessibilidade vai muito além da rampa. É sobre garantir que uma pessoa possa sair de casa, caminhar pela calçada, atravessar uma rua, utilizar o transporte público, entrar em um estabelecimento, acessar um serviço e circular pela cidade com segurança, autonomia e dignidade”, explica Renata.

Arquiteta Renata Melo (Foto: arquivo pessoal)

Calçada também faz parte da acessibilidade

Nas áreas externas, as calçadas estão entre os principais pontos que podem dificultar a circulação. Desníveis, pisos irregulares ou escorregadios, obstáculos e mobiliário urbano mal posicionado podem comprometer o deslocamento.

Para outra especialista, Gabriela Loureiro, arquiteta que também atua na área da acessibilidade, o problema também aparece quando os elementos acessíveis não estão conectados. Uma vaga reservada, por exemplo, perde parte de sua função se não houver uma rota segura ligando o local à entrada do estabelecimento.

“Não adianta uma edificação ter uma entrada acessível se a pessoa não consegue chegar até ela de forma segura. Não adianta existir uma vaga reservada se não houver uma rota acessível conectando a vaga à entrada”, afirma Gabriela.

Arquiteta Gabriela Loureiro (Foto: arquivo pessoal)

Dentro dos imóveis, portas estreitas, corredores inadequados, banheiros mal dimensionados, barras de apoio instaladas de forma incorreta e ausência de sinalização acessível também podem criar barreiras.

Pequenos detalhes podem impedir a autonomia

Alguns obstáculos são pouco percebidos por quem não enfrenta dificuldades de mobilidade, mas podem fazer diferença no dia a dia de uma pessoa com deficiência.

Entre os exemplos citados por Renata estão lixeiras com acionamento por pedal, que podem ser difíceis de utilizar por pessoas com limitações motoras, e balcões de atendimento sem espaço adequado para a aproximação frontal de uma pessoa em cadeira de rodas.

Rampas instaladas diretamente diante de portas também podem representar um problema quando não existe um patamar adequado para abertura, fechamento e manobra.

São situações que mostram que a acessibilidade precisa ser analisada a partir da experiência de quem utiliza o espaço, e não apenas pela presença ou ausência de determinados equipamentos.

Inclusão também passa pelos espaços de convivência

A acessibilidade também está relacionada à possibilidade de participar de atividades de lazer, cultura, convivência e socialização. Em Teresina, iniciativas voltadas à inclusão e à participação social de idosos e pessoas com deficiência ajudam a ampliar o acesso desse público a diferentes experiências.

Um exemplo é o Projeto 60+, que reúne idosos em atividades voltadas à convivência, ao entretenimento e à promoção da qualidade de vida. Neste sábado (15), mais de 700 participantes do projeto estarão no Clube do Marquês para o Bailinho do 60+, em uma programação que também contará com o Arte Itinerante. 

O Arte Itinerante também integra iniciativas de democratização do acesso à cultura em Teresina, com ações que levam apresentações e atividades artísticas a diferentes espaços da cidade. A proposta inclui linguagens como teatro, cinema, música, dança e artes visuais.

Projetos dessa natureza contribuem para que a inclusão ultrapasse o acesso físico aos espaços e alcance também a convivência e a participação social. Para que isso aconteça de forma plena, as iniciativas consideram as diferentes necessidades do público desde a chegada ao local até a circulação e a permanência no ambiente.

Envelhecimento exige cidades preparadas

A discussão ganha ainda mais importância diante do envelhecimento da população brasileira. Segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, grupo que representa cerca de 15,8% da população.

Com o avanço da idade, algumas pessoas podem apresentar mudanças na mobilidade, no equilíbrio, na visão e na audição. Por isso, características como pisos regulares e antiderrapantes, boa iluminação, corrimãos, barras de apoio, ausência de obstáculos e locais para descanso podem contribuir para a segurança e a autonomia.

A sinalização também precisa ser considerada, com informações claras, bom contraste e fácil compreensão.

Para Renata Melo, o envelhecimento populacional exige mudanças na forma como cidades, edificações e serviços são planejados. A ideia é que os espaços não sejam pensados apenas para um perfil específico de usuário, mas para diferentes necessidades que podem surgir ao longo da vida.

Acessibilidade deve ser pensada desde o projeto

Uma das formas de evitar adaptações posteriores é considerar a acessibilidade ainda na fase de planejamento. O chamado Desenho Universal busca criar ambientes que possam ser utilizados pelo maior número possível de pessoas, com segurança, conforto e autonomia.

Gabriela Loureiro destaca que as normas técnicas, como a NBR 9050, estabelecem requisitos importantes para garantir o acesso, mas devem ser compreendidas como um ponto de partida para o planejamento dos espaços.

Quando a acessibilidade é incorporada desde o início, ela deixa de ser uma adaptação feita posteriormente e passa a integrar a própria arquitetura. O resultado é uma cidade com menos barreiras e com espaços capazes de acompanhar as diferentes necessidades das pessoas ao longo da vida.

Mais do que atender a um grupo específico, esse planejamento contribui para ambientes mais seguros e funcionais para toda a população, permitindo que idosos, pessoas com deficiência e pessoas com diferentes níveis de mobilidade possam circular, conviver e participar da vida urbana com mais autonomia.

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