Governadores de todo o Nordeste discutem em Teresina, esta semana, um plano regional de segurança. Já não era sem tempo. Não precisa ser especialista na matéria para saber que sem um plano estratégico de segurança pública é impossível se quer imaginar um combate efetivo da violência.
A população tem pressa. O cidadão vive com medo. Na rua, no trabalho, na agência bancária, no restaurante, no passeio de domingo com a família e até dentro de casa. Hoje, todas as decisões cotidianas do piauiense e dos brasileiros, em geral, têm como critério ‘nº um’ a segurança e mesmo assim não é possível escapar da ação dos bandidos.
O comerciário Paulo de Sousa Andrade (35) teve o carro roubado, esta semana, na porta da própria residência.“Foi surpreendente, em poucos minutos fiquei sem o meu veículo que trabalhei anos e anos para conseguir comprar”, disse o comerciário.
A questão é que para combater a violência que assombra o cotidiano dos cidadãos e para conter o avanço do crime organizado pelos estados não basta apenas um plano de segurança, determinação e dinheiro são fundamentais.
A polícia precisa de salários decentes. No Piauí, o governador Wellington Dias (PT) disse recentemente que fez reajustamento de salários na área da segurança em 2015, 2016 e 2017. Já os policiais militares, que combatem o crime nas ruas, afirmam que desde 2015 não há correção de valores salariais e a categoria está à espera de um reajuste.
Também é necessário equipar as polícias e construir presídios, mas o Piauí terá dificuldades de ter acesso ao crédito que o governo federal acenou liberar para os estados, com esse objetivo.
A ideia é liberar o dinheiro, ao longo de cinco anos: 42 bilhões de reais para os estados investirem em ações de segurança pública. Cerca de 80 %, algo em torno de 33, 6 bilhões, serão disponibilizados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Só que para o Piauí há uma pedra no meio do caminho: endividado e com problemas graves na área, o estado terá problemas para receber a garantia da União, uma exigência do banco para o acesso a esse crédito.
Falta ao Piauí, ao Distrito Federal e mais 16 estados, o rating, a nota de crédito que torna possível esse aval da União. Somente as notas A ou B indicam avaliação favorável ao nível de endividamento e com elas os estados poderão pleitear os empréstimos. O Piauí, no entanto, aparece no rol daqueles com rating C ou D.
O presidente do BNDES, Paulo Rabello, já se manifestou sobre o assunto, confirmando que no caso das notas C e D existe a restrição de que o próprio estado seja o tomador dos recursos e apontou a necessidade de se buscar uma outra alternativa.
Além do endividamento, no Piauí há um outro fator preponderante: o descaso do governo com a segurança, o que implica na falta de prioridade de políticas públicas que possam resolver um problema que vem se agravando nos últimos quinze anos.
Para se ter uma ideia, o atual governo investe somente pouco mais de R$ 200 reais em segurança por habitante, de acordo com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O que coloca o estado no ranking dos que menos investem em segurança no Brasil.
Para o professor da Universidade Estadual do Piauí, Arnaldo Eugênio, especialista em segurança e doutor em Antropologia, a explicação é simples: “No jogo perverso do arranjo político, a violência precisa permanecer para que seja usada a cada campanha eleitoral”, afirmou o professor.
A explicação é simples e trágica para o cidadão. Vítima desse tipo de perversidade, a população fica vulnerável à violência e sem a proteção que deveria ter dos governantes. Pelo visto, o poder ou se perpetuar nele é o que mais importa.
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